domingo, 27 de abril de 2014

O difícil exercício do equilíbrio

Sou radicalmente contra posições extremas, absolutas, inamovíveis. Ou talvez eu seja apenas extremamente contra radicalizar idéias (rs).

O conceito (?) "politicamente correto" é um exemplo nefasto de radicalização, que procura impedir uma discussão honesta simplesmente criando constrangimentos morais (?) a determinadas posições. É um obstáculo terrível, mas não o único, ao desenvolvimento da inteligência e do conhecimento humanos, e da sociedade enfim.

Uma possível razão para que esse tipo de mal se propague com tanta força é que os extremos são confortáveis. Do ponto de vista intelectual, exigem pouco ou nenhum esforço. Basta declarar sua posição absoluta e tudo o que se disser contra passa a ser socialmente reprovável.

Ao contrário, o exercício honesto do bom debate não raro consome muita energia mental, é desconfortável e extenuante! Mas talvez o que mais assuste aqui seja que eventualmente nos vemos obrigados a desagradar ao nosso próprio ego, à nossa vaidade, quando somos levados a rever nossas idéias. Desconfortável e assustador, não é mesmo?

Discutir futebol, por exemplo, é confortável. Ninguém precisa realmente ouvir o que o outro está dizendo, precisa apenas pensar na sua próxima frase de efeito. Observar esse exercício de fora, com um olhar desapaixonado e um pouco mais crítico, costuma ser muito interessante. Mantido o respeito pessoal, é diversão saudável e garantida, tanto para os protagonistas quanto para a platéia. Cada ator já tem sua conclusão pronta, solidificada desde o início, e busca apenas persegui-la a qualquer custo.

Quando, por outro lado, nos colocamos a discutir questões de relevância social, como a segurança no trânsito ou a violência doméstica o caso é outro. A atitude aqui precisa ser mais responsável, não podemos usar os mesmo mecanismos! Mas infelizmente, o que vemos normalmente são as mesmas atitudes repetidas. Parte-se de uma posição (conclusão?) para apenas buscar reafirmá-la, desperdiçando oportunidades valiosas de aprendizado. Às vozes dissonantes aplicam-se rótulos, como esse do politicamente incorreto e outros tantos, com o único objetivo de desqualificar o seu conteúdo, sem qualquer análise de valor. Assim fazendo, sentem-se confortavelmente autorizados a desconsiderar essas opiniões incômodas. Ou pior, hostilizá-las!